Miguel Esteves Cardoso é, sem dúvida, um
dos mais brilhantes escritores da sua geração. Junta a isso uma costela de
gastrónomo, perceptível nas suas inúmeras crónicas e apontamentos
sobre a boa mesa, os melhores restaurantes, os vinhos de maior qualidade e,
para rematar os melhores
cafés de todo o mundo. Mas Miguel Esteves Cardoso reagiu com especial
sensibilidade ao Brexit, que levará o Reino Unido a sair da União Europeia. Na minha opinião, reagiu como um merdoso, algo que nunca teria acontecido aos
residentes em Downtown Abbey, se fossem mais do que personagens de uma série
televisiva.
Numa crónica no Público,
MEC diz sentir-se “triste
que uma pequena maioria tenha decidido sair da União Europeia”. A
Democracia, pelos vistos, é um bom sistema político, excepto quando o nosso
lado perde. Os votantes da sua cor são considerados uma “imensa minoria” que
integra aqueles que “são mais bem educados, mais cosmopolitas, mais jovens,
mais liberais – e obviamente os mais privilegiados”.
Os 52 % vencedores
deste referendo, para Miguel Esteves Cardoso, são “os ingleses, escoceses,
galeses e irlandeses do Norte que são os menos simpáticos - incluindo os mais
repugnantes (…)” Para o sempre bem-disposto Miguel Esteves Cardoso, esta faixa
da população parece ser uma “gentinha” que tem mais de 40 anos, deixou de
estudar aos 16 anos e não saberá vestir outra coisa que não sejam calças de
fato de treino.
Para o cronista
dos bons prazeres da vida, devia criar-se um novo estado soberano, com capital
em Birmingham (em Swansea , nos meses de Verão) para onde se
deportassem “todos os ingleses e galeses que quiseram sair da União Europeia. Para as “áreas menos lindas do Sul”, onde a maioria votou também por sair da UE, Miguel Esteves Cardoso propõe que fossem “doadas com alívio e
sinceridade a quem quisesse viver independentemente sem quaisquer contactos com
estrangeiros de qualquer espécie.”
A crónica de Miguel
Esteves Cardoso termina com um
lamento a cheirar ao Reichsfurer Himmler, quando se debruçou sobre o mapa da
Polónia recém-conquistada, a planear a forma de tornar esse país “Judenfrei”
(livre de Judeus…): “Que pena não se poderem aproveitar os resultados deste
referendo para redistribuir as populações do Reino Unido de maneira a juntar
pessoas que partilham a mesma mentalidade insular e inglesinha e impedir que
fossem incomodadas por alienígenas.” Abbey
Road de um lado, camponeses do outro. A chatice é
que, depois, comiam merda, provavelmente, por não have gente para cultivar a
terra.
Não sei se Miguel
Esteves Cardoso não terá dito, entre dentes, “Sieg Heil”, ao teclar estas últimas
frases da sua crónica abjecta. Ter-lhe-á passado pela cabeça a enorme
dificuldade em levar a cabo uma deportação em
A mesma questão
se pode levantar em relação aos empregados de cozinha. Talvez o cronista
devesse pensar na hipótese de transferir alguns dos “mais repugnantes”
apoiantes do Brexit para lavarem os pratos e os copos nos mesmo restaurantes. Claro
que teriam de residir em zonas pré-definidas, de forma a que o seu odor não
provocasse terríveis enjôos aos membros da “imensa minoria” que saiu derrotada
do referendo. Mas isso também não seria impossível. Bastava
recolher-se a experiência dos nazis com os trabalhadores-escravos.
Penso que a melhor
de todas as soluções, tanto para o Miguel Esteves Cardoso como para a “imensa
minoria”, seria exterminar os “menos simpáticos (…) incluindo os mais
repugnantes”, garantindo que esses 17 milhões não voltariam a votar, sobretudo agora
que a parte derrotada tenta obrigar a um segundo referendo. Isso também não
seria difícil. Há uma série de artigos e gráficos, publicados por pró-europeístas,que explicam bem a clivagem do voto etário.
A maioria dos
idosos com mais de 65 anos, por exemplo, votou Brexit. Neste conjunto de
artigos e gráficos também se rejeita esse direito ao voto, clamando que os
velhos de 65 anos viverão apenas mais 10 ou 15 anos suportando as consequências
do seu voto. Como os jovens de 25 anos, que votaram maioritariamente contra
o Brexit, terão de viver mais 50 ou 60 anos com os resultados deste referendo, estes
teóricos de segunda volta afirmam que os
resultados não são aceitáveis, por causa disto.
Se o direito a
voto dependesse do número de anos de vida sob as medidas em discussão, seria fácil
exterminar, nem que fosse apenas eleitoralmente, 5 ou 6 milhões de apoiantes do
Brexit. E pronto: a “imensa minoria” de Miguel Esteves Cardoso, composta por cidadãos
“mais bem educados, mais cosmopolitas, mais jovens, mais liberais” passaria a
mandar na “pequena maioria” de “menos
simpáticos - incluindo os mais repugnantes”, uma “gentinha” que tem mais de 40
anos, deixou de estudar aos 16 anos e não saberá vestir outra coisa que não
sejam calças de fato de treino.
Já agora, para
que o Miguel Esteves Cardoso não fique frustado com a impossibilidade física de
“redistribuir as populações do Reino Unido”, de acordo com os resultados deste
referendo, deixo-lhe aqui uma sugestão para ocupar o tempo, sobretudo
naqueles seus almoços que duram até à hora do jantar. Trata-se de um jogo
tipo monopólio, bastante antigo – foi lançado no mercado em 1936 – e que
garante um divertimento semelhante à redistribuição territorial de ingleses,
galeses, irlandeses e escoceses, divididos em apoiantes e oponentes do Brexite,
que o Miguel Esteves Cardoso tanto gostaria de poder fazer. Neste
caso trata-se do jogo “Juden Raus” (Judeus Fora!). A lógica do jogo é
simples: movimentar peças (os Judeus) de forma a colocá-las fora das muralhas
da Alemanha, em locais de onde fossem transportados para a Palestina.
Basta que o
Miguel Esteves Cardoso, como bom merdoso que demonstra ser, nesta crónica, substitua “Juden” por “Brexit” e faça umas pequenas
alterações geográficas para poder satisfazer os seus sinistros desejos lambuzados
de bosta nazi, seleccionando seres humanos aos milhões e transportando-os de comboio “de maneira a juntar pessoas que partilham a mesma mentalidade insular
e inglesinha e impedir que fossem incomodadas por alienígenas.”















