domingo, 3 de junho de 2018

Rocha Vieira, a biografia de Li Peng, a síndrome do “inimigo imaginário” e a necessidade de isolar e identificar os "desestabilizadores" de Macau

Afonso Camões em Macau, num debate da associação de jornalistas portugueses e ingleses, em Maio de 2017: "É preciso é 'defender o quadro de direitos e liberdades que temos (em Macau) e aprofundá-los tanto quanto possível”

Em Agosto de 1994, o general Rocha Vieira foi notícia em tudo quanto era órgão de Comunicação Social, por esse mundo fora. Tudo por causa de uma malfadada “biografia” do primeiro-ministro chinês, Li Peng (o homem responsável pelo massacre de 4 de Junho de 1989, na Praça Tiananmen) incluída no “kit” de Imprensa distribuída aos jornalistas que acompanharam a visita, já dentro do avião que os levaria a Pequim.
Nesse documento, o primeiro-ministro chinês era descrito como “arrogante”, “autoritário” e “impopular”, explicava na altura uma notícia da “Tribuna de Macau”, jornal português do território. A “gaffe” foi alvo de comentários irónicos, piadas e observações mais ou menos galhofeiras, em centenas de órgãos de Comunicação Social.
A revista “Time” salientava que Macau “poderia vir a ter problemas". Funcionários do Governo tinham distribuído aos jornalistas, por engano, um relatório que era suposto ser destinado apenas ao Governador, descrevendo a 'incompetência e má-reputação' de Li Peng. O Governo chinês, acrescentava a revista, reagiu com “espanto”.
O “South China Morning Post”, na altura um dos maoires e mais prestigiados jornais de língua inglesa da Ásia, escrevia que estava em curso “uma busca frenética de um bode expiatório. Uma cabeça, qualquer cabeça, terá que rolar”, garantia o jornal. Num artigo de opinião de Jonathan Braude, publicado no dia 2 de Setembro de 1994, referiam-se pormenores que já eram do conhecimento dos leitores dos jornais de Macau.
Depois de citar as reacções tanto de Rocha Vieira, negando a responsabilidade do Governo de Macau na autoria do documento ou na sua inclusão no “kit” de Imprensa, bem como o alerta público dos governantes chineses, contra “algumas pessoas” que pretendiam minar as relações sino-portuguesas, o autor questionava: “Mas qual é a verdade?”
E dava a resposta, a seguir, citando a sua “toupeira” (informador...) em Macau: “Pura incompetência, na minha modesta opinião”, disse-lhe o tal informador. “Em qualquer sociedade normal e civilizada, o assessor de Imprensa seria crucificado.”


José Carlos Vieira, assessor de Imprensa do Governador Rocha Vieira

No entanto, acrescentava Jonathan Braude, o dedo acusador estaria apontado a um “funcionário menor do gabinete de Imprensa” de Rocha Vieira. O conteúdo do documento, aliás, “sugeria que a 'biografia' tinha sido traduzida a partir de recortes da Imprensa chinesa, provavelmente de Hong Kong”.
O jornal “Público”, também nos primeiros dias de Setembro, dava destaque à questão da misteriosa “biografia”, noticiando que o incidente já tinha dado origem a dois inquéritos, solicitados por Rocha Vieira. Num deles, de natureza interna e disciplinar, já tinham, inclusivé, sido ouvidos vários funcionários do Gabinete de Comunicação Social. O jornal anunciava ainda um “inquérito preliminar”, do responsabilidade do Ministério Público, “dirigido pelo magistrado Carlos Machado.”
O jornal referia ainda que, no dia da partida para Sanghai, segunda etapa da visita de Rocha Vieira, a Imprensa chinesa publicada em Pequim (*) assinalava o encontro do general com o primeiro-ministro, Li Peng: “Encontro que reafirmou 'as boas relações sino-portuguesas' e demonstrou que Li Peng 'procura laços firmes com Macau'. Não houve nenhuma referência ao incidente da biografia que qualificava Li Peng como personagem 'arrogante, arbitrário e impopular”, salientava o “Público”.
A “Tribuna de Macau” acrescentava pormenores sobre a forma como o Governo da China e Rocha Vieira tinham reagido ao incidente: “O vice-primeiro-ministro chinês afirmou (…) que 'algumas pessoas tentaram minar a cooperação sino-portuguesa em Macau. Devemos continuar a estar vigilantes quanto a isso”, escreveu o jornal, citando Qian Qichen.
Num encontro anterior com o vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Rocha Vieira terá afirmado que “a referida biografia não foi elaborada pela administração de Macau e manifestou 'profundo descontentamento' pelo sucedido. 'Não sabemos quem a elaborou. Está escrita num papel que não tem timbre e não foi elaborada pelos nossos serviços”, garantiu Rocha Vieira, citado pela “Tribuna de Macau”. No entanto, de acordo com o mesmo jornal, o Governador de Macau terá apontado algumas responsabilidades (óbvias...) ao seu assessor de Imprensa, José Carlos Vieira e ao director do GCS, Afonso Camões, ao salientar que “a referida biografia, escrita em inglês, 'foi inadvertidamente distribuída. Não foi lida e devia ter sido. Foi um erro”, terá admitido, nesse encontro privado, o Governador de Macau. Com efeito, se havia alguém cujas funções os obrigava a ter lido, de ponta a ponta, o “kit” de Imprensa, antes de ele chegar às mãos dos jornalistas, eram essas duas pessoas.

Afonso Camões, então director do GCS, num almoço com jornalistas portugueses de Macau
Enquanto a visita de Rocha Vieira prosseguia, a “biografia” continuava a ser tema na Imprensa internacional. O jornal inglês “The Independent”, numa coluna de comentários, citava as afirmações do Governador de Macau, dizendo que a tal “biografia” era apenas “um documento para 'briefing' do Governador” e nunca devia ter sido distribuída. O jornal colocava essas justificações, ironicamente, no topo da sua classificação do “Tipo de Pedido de Desculpas que Apenas Pioram as Coisas”.
Em Fevereiro de 1997, o incidente ainda era notícia no principal jornal inglês de Hong Kong, o “South China Morning Post”. Já se sabia então que Edmund Ho seria o primeiro Governador chinês de Macau e, numa biografia do futuro governante, da autoria do jornalista Niall Fraser, salientava-se que Edmundo Ho “tinha mais prestígio do que o último governador português. “(Rocha) Vieira é mais recordado pela extraordinária 'gaffe' que consistiu no facto de um documento interno onde se vilipendiava o primeiro-ministro Li Peng, pela sua 'arrogância, carácter arbitrário e má-reputação' ter sido distribuído, por erro, aos jornalistas que acompanhavam a visita oficial (de Rocha Vieira) à China, em 1994.”
Aqui, tenho que fazer uma confissão: fui eu o responsável pela elaboração daquele documento! Quando cheguei a este ponto do texto, estive quase para deixar o “post” pendurado, com mais uma frase, apenas, a dizer: ”Continua brevemente”. Isso permitiria algumas manifestações de júbilo, por parte de um ou outro fiel do general que, de certeza lhe telefonaria com uma conversa do género: “Está a ver, eu bem lhe dizia que o sabotador tinha sido o tipo da “Gazeta Macaense”. Mas depois resolvi não ser tão mauzinho e continuei...
A minha responsabilidade na elaboração do texto aconteceu em 1989, pouco depois dos acontecimentos de 4 de Junho, na Praça Tiananmen. Eu era Chefe do departamento de Informação do GCS e dei instruções a um funcionário do GCS, o sr. Wang, ex-jornalista da agência Xinhua, já reformado, encarregue de fazer análises regulares da Imprensa chinesa de Hong Kong, para se concentrar nas reacções e comentários acerca do papel de Li Peng na decisão de reprimir a revolta estudantil. Pedi-lhe ainda que acrescentasse alguns dados biográficos sobre o seu percurso no seio do Partido Comunista Chinês.
O sr. Wang escrevia as suas análises em Inglês e, talvez por “vício profissional”, nunca utilizava papel timbrado do GCS. Das declarações do general Rocha Vieira, em Pequim, sobre a “biografia”, a frase "Está escrita num papel que não tem timbre (...)" é a única frase que é verdadeira. Para quem não sabe, a Xinhua tem um triplo papel: é uma agência de propaganda noticiosa do Governo chinês, funcionava, em determinadas situações, como representação diplomática (em Macau, por exemplo) e é ainda um “braço” dos serviços secretos chineses, na recolha de informações. Os seus jornalistas são politicamente vetados e treinados também para essas funções.
O hábito de não utilizar papel timbrado do GCS, por parte do sr. Wang, talvez tivesse a ver com essa formação que, entre outras coisas, recomendava que não se deixavam pistas concretas que permitissem identificar a orgem de determinadas informações. O trabalho do sr. Wang, que apenas dependia hierarquicamente de mim e do director do GCS, era feito dentro de um “gentlemen's agreement”: apenas lhe interessava o emprego, que a reforma era escassa e não tinha acesso a qualquer tipo de informação produzida por outras secções do GCS.
Entreguei o relatório ao Miguel Lemos, então director do GCS, que o fez chegar ao Governador Carlos Melancia. Ficaram cópias comigo, no Centro de Documentação do GCS e no arquivo pessoal do sr Wang.

Li Peng, o Primeiro-Ministro chinês apelidado de "arrogante" na alegada "biografia" distribuída aos jornalistas que acompanharam Rocha Vieira na sua visita a Pequim, em 1994
A forma como aquele documento foi introduzido no “kit” de Imprensa, já a contei, com todos os pormenores, num texto que publiquei na “Gazeta Macaense” (de que eu era o director, na altura) ainda Rocha Vieira estava em Shangai. Tratou-se de um caso de “pura incompetência”, como escreveu então Jonathan Braude, no South China Morning Post – com a ajuda do tal “informador” que ele tinha em Macau.
Dentro do espírito de autêntica esquizofrenia em que a Administração Rocha Vieira vivia, rodeada de inimigos, sabotadores e conspirações imaginárias – a tal “mentalidade de Guidage” que referi num post anterior - o director do GCS deu instruções a um homem da sua confiança, o jornalista Rui Isidro, para elaborar o “kit” de Imprensa. Disse-lhe para pedir a documentação necessária aos vários sectores do GCS mas recomendou-lhe que não referisse uma palavra sobre o destino dessa documentação.
E ele assim fez. Lá deitou mão ao texto do sr. Wang, mas a verdade é que ou nem o leu ou não percebeu o que lá estava escrito (tinha, aliás, um fraco domínio da língua inglesa). A esta negligência/incompetência, juntam-se outras duas: terminada a elaboração do “kit” de Imprensa, nem o director do GCS, Afonso Camões, nem o assessor de Imprensa do Governor, José Carlos Vieira, tiveram a preocupação de o ler, de ponta a ponta, para ver se não havia falhas. E é assim que, neste acumular de incompetências, se cria alguma tensão diplomática, o Governador é humilhado e obrigado a pedir desculpas e a viagem de Rocha Vieira a Pequim resume-se, nos Media internacionais, a piadas e ironias, sobre um episódio profundamente caricato.
E agora, aquilo a que os americanos chamam “The Million Dollars Question”: quem mentiu a quem? Porque razão Rocha Vieira garantiu publicamente que “a referida biografia não foi elaborada pela administração de Macau”, acrescentou que “não sabemos quem a elaborou” e foi ao pormenor de salientar que “está escrita num papel que não tem timbre”, como referiu a “Tribuna de Macau”?
Rui Isidro mentiu a Afonso Camões, disse-lhe que nunca tinha visto aquele documento e, obviamente, não tinha sido ele a colocá-lo no “kit” de Imprensa? Rui Isidro foi sincero, reconheceu o erro e o Afonso Camões mentiu ao Governador, para se safar de responsabilidades que, em última análise, lhe cabiam também a ele, como director do GCS? Afonso Camões poderá ter dito a verdade ao Governador e, naquelas circunstâncias, Rocha Vieira teria que dar uma justificação aos governantes chineses. A mais simples e correcta seria dizer que aquilo não era biografia nenhuma, mas uma análise da Imprensa chinesa de Hong Kong que tinha ido ali parar por erro de um funcionário.
Mas isso era simples demais. Não permitia, por exemplo, que fosse aplicada uma das tácticas preferidas do general, a encenação do “inimigo imaginário”, para desencadear uma onda de “caça às bruxas”, à procura de um inexistente sabotador. E foi o que aconteceu, com o dedo (e a voz, em “off”) de altos responsáveis da Administração a apontarem para vários potenciais suspeitos, desde eu próprio a agentes dos serviços secretos ingleses, baseados em Hong Kong.


Chris Patten, Governador de Hong Kong em 1994

Aliás, a visibilidade dada a estas suspeitas e o facto de terem origem em altos responsáveis da Administração de Macau, foram ao ponto de obrigar o porta-voz do Governo de Hong Kong a vir dizer publicamente “que qualquer envolvimento das autoridades inglesas na questão da biografia é 'pura ficção”, como noticiou então a “Tribuna de Macau”.
Outro “suspeito do costume” foi o antigo director do GCS, Miguel Lemos, que, por mera coincidência temporal (e azar dele...) esteve uma semana de férias em Macau, pouco antes da deslocação de Rocha Vieira a Pequim.
Os dois inquéritos ordenados pelo Governador – um, de natureza disciplinar, outro a cargo do Ministério Público – não chegaram a conclusão nenhuma. Esta é mais uma razão que me convence de que, de facto, alguém aqui mentiu e não terá sido só, eventualmente, ao Governador, mas também aos responsáveis pela condução dos dois inquéritos.
O incidente, no entanto, foi útil ao general. Tal como já referi, aproveitou para, a nível interno, reunir as suas “tropas” e insistir na necessidade de estarem sempre alerta, porque viviam rodeados de “inimigos” que atacavam quando menos se esperava, onde ninguém previa. A “biografia” de Li Peng era prova disso.
Mais clara ficou essa mentalidade quando, em Fevereiro de 2000, o ex-secretário-adjunto de Rocha Vieira para a Administração, Educação e Juventude, Jorge Rangel, fez um apelo público, numa entrevista à televisão local, TDM, para que “alegados desestabilizadores de um clima de boa harmonia (em Macau) fossem 'isolados e identificados” - isto, a propósito de notícias sobe a chamada “mini-fundação Jorge Álvares”, o Instituto Internacional de Macau (IIM), criado exactamente da mesma forma como Rocha Vieira constituiu a sua desastrosa fundação.
Nuno Lima Bastos, um jurista que esteve muitos anos em Macau, descreve minuciosamente o episódio da criacão, antes de Dezembro de 1999, do Instituto Internacional de Macau (IIM), no seu blogue “O Protesto”: “A escritura notarial de constituição do Instituto Internacional de Macau (IIM), celebrada no cartório privado de António Dias Azedo em 25 de Junho de 1999, ainda Jorge Rangel integrava o Executivo do general Rocha Vieira como titular da pasta da Administração, Educação e Juventude, referia tratar-se de uma 'organização não governamental, com a natureza de pessoa colectiva de direito privado, de carácter associativo e sem fins lucrativos, prosseguindo objectivos académicos, científicos e culturais”. 
 
Jorge Rangel, ex-secretário-adjunto de Rocha Vieira, numa homenagem do Instituto Internacional de Macau, a que ainda hoje preside, ao último Governador português do território
Apresentava como sócios-fundadores o próprio Jorge Rangel, a deputada Edith Silva (actual directora da Escola Portuguesa de Macau) e o director da Revista de Cultura, Luís Sá Cunha. A comissão instaladora do IIM era presidida por José Amaral, então chefe de gabinete de Jorge Rangel. Em reunião realizada no dia 16 de Dezembro de 1999, os sócios-fundadores desta organização não governamental – convocados pelo presidente da comissão instaladora – procederam à eleição da direcção do IIM. Jorge Rangel foi designado presidente do instituto e, como vice, José Amaral, que presidira à comissão instaladora”. Tudo 'em família', portanto.”
O financiamento, estimado entre os 60 e os 85 milhões de patacas, foi atribuído pela Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento, cujo Conselho de Curadores (sete elementos nomeados pelo Governador) era presidido pelo próprio Rocha Vieira, pela Fundação Macau (tutelada pelo próprio Jorge Rangel) e por verbas canalizadas através do orçamento privativo do gabinete de Rocha Vieira. É aliás, o próprio secretário-adjunto Jorge Rangel que, no seu Despacho n.º 38/SAAEJ/99, publicado no Boletim Oficial de 13 de Outubro de 1999, atribuiu ao IMI a qualidade de pessoa colectiva de utilidade pública administrativa, permitindo-lhe, assim, beneficiar do respectivo regime de isenções fiscais.
Logo depois de o jornal “Ponto Final” fazer uma primeira página com a notícia da criação do “Instituto Internacional de Macau”, Rangel faz o tal apelo público para que os perturbadores da estabilidade de Macau fossem “identificados” e “isolados”.
Ricardo Pinto, então director do jornal, respondeu-lhe à letra, num editorial datado de 3 de Março de 2000: “(...) condenável, em nossa opinião, é o apelo lançado pelo antigo secretário-adjunto, na entrevista à TDM, para que alegados desestabilizadores de um clima de boa harmonia fossem 'isolados e identificados'. É algo que não esperávamos ouvir nos dias que correm. Soa, decididamente, a caça às bruxas onde o papel da Imprensa se resume à mera amplificação dos desígnios do poder e onde qualquer desvio à norma transforma o seu autor num inimigo a abater”.
Por outras plavras, o general fez, sem dúvida, escola entre os seus fiéis seguidores...


(*) Nota: Curiosamente, é impossível encontrar, na Internet, por mais que se “google”, fotos da visita de Rocha Vieira a Pequim, em 1994...
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