domingo, 4 de dezembro de 2016

4 de Dezembro de 1980 - O dia em que não me cruzei com a História, por duas vezes


Durante algum tempo, no verão de 1980, trabalhei em várias diversões da Feira Popular de Lisboa. Ganhava-se mal, um ordenado mínimo nacional, que era curto. Mas era o que havia, em tempos de crise, para uma família retornada como a minha, chegados com três caixotes de madeira e as respectivas mãos, atrás e à frente.
Em finais do ano, estava nos escritórios da empresa, na Quinta do Figo Maduro. O ordenado era o mesmo, mas o trabalho fazia-se melhor. A única devantagem, para quem vivia em Odivelas, como eu, era a viagem de autocarro até lá.

De casa à Feira Popular, o trajecto era directo. Para chegar à Quinta do Figo Maduro, tinha que apanhar três autocarros, num percurso que durava quase duas horas e meia. Primeiro, ia de Odivelas até Entre-Campos, onde aproveitava para despachar uma bica e dois pastéis de nata, à laia de pequeno-almoço. Depois, tinha um tempo razoável de espera, até entrar noutro autocarro que me deixava na Rotunda do Relógio, já nos arredores do aeroporto.


O lance final era entre essa rotunda e uma rua que ficava a cerca de dois quilómetros dos escritórios da Sociedade Lusitana de Atrações. No Inverno, com a chuva acair a rodos, era pouco agradável. Pouco antes de Dezembro,os chefes encarregaram-me de ir ajudar a funcionária responsável pela actualização do resgisto do armazém de materiais.
Foi um trabalho chatíssimo, feito numa velha máquina mecanográfica que estava mais tempo avariada do que a funcionar. Essa tarefa tinha que ser feita fora do meu horário normal de trabalho. Daí que "pegasse" às 6h00 da tarde e trabalhasse entre uma a três horas, conforme a disposição e a fome.
Lembro-me que fui direito à casa da minha namorada da altura, minha futura mulher e mãe do meu primeiro filho. Quando entrei, reparei num estado de agitação enorme da minha futura (e muti, mas muito querida) e das minhas duas, também futuras cunhadas: "Morreu o prmeiro-ministro" - disse-me a sogra Judite.
Já não me lembro exactamente a que horas saí do trabalho, nesse dia 4 de Dezembro. Estava especialmente cansado, porque tinha passado os dois últimos meses a frequentar um curso nocturno de programação de computadores, numa empresa chamada Norma, o que me obrigava a chegar a casa extenuado e esfomeado, perto da meia-noite, com tanto o almoço como o jantar despachados à base de sandes e uma bejeca, que o dinheiro não dava para restaurantes de garfo e faca. Estava a sentar-me no sofá da sala quando telejornal começou. Ouvi o Raúl Durão dizer que o Primeiro-Ministro e o ministro da Defesa tinham morrido na queda de um avião, junto ao Aeroporto Militar de Lisboa, na zona da Quinta do Figo Maduro, e senti um violento arrepio. Dei um salto do sofá, numa explosão de fúria e berrei meia-dúzia de impropérios dirigidos esencialmente aos comunistas portugueses, familiares e seus simpatizantes, apaniguados, sequazes, etc, etc.
Lembrava-me perfeitamente de lhe ter perguntado se ele continuava decidido a ficar em Angola e não regressar a Portugal, a terra onde tinha nascido. Sem tirar os olhos da estrada, numa voz firme e segura, o meu pai repondeu-me numa só frase: "Filho, entre voltar pobre à terra de onde saí pobre, há 40 anos, prefiro morrer aqui".
Tendo passado os dois últimos anos, em Angola, no meio de tiros de G-3, explosões de RPG's e quedas de morteiros 80, eu não era propriamente um partidário de um modelo de convivência democrática com elementos que professassem ideologias de Esquerda. Verdade seja dita que continuo igual, talvez até ligeiramente melhor.... Voltei a sentar-me e ficámos ali, os quatro, na sala, a olhar em silêncio, para as imagens da televisão - que, depois disso, não foram mais repetidas - onde se viam nitidamente vários corpos carbonizados. Pouco tempo estive ali. Telefonei para minha casa e falei com a minha mãe, que estava em autêntico estado de choque. Com o meu pai não pude falar, porque ele continuava em Angola. Não o via há mais de quatro anos, quando me tinha levado, de carro, para o aeroporto de Luanda, para eu tomar o meu lugar na ponte aérea que todos os dias despejava milhares de portugueses de todas as cores no aeroporto da Portela.
Acabei por voltar para trás, à procura da namorada. Enquanto o funeral prosseguia, dei por mim a tentar imaginar o que teria acontecido se 40 ou 50 de nós - os apoiantes de Eanes não eram mais de centena e meia - tivéssemos conseguido lá chegar. Havia pancadaria da séria e não me lembro de polícia pela zona, a não ser o barrigudo pessoal do trânsito que controlava a circulação.
Nessa noite, enquanto subia até à Quinta do Mendes, pensava para comigo próprio que tinha falhado, por pouco, uma espécie de encontro com a História. Tivesse trabalho mais um ou duas horas e era testemunha daquela tragédia, ocorrida a pouco distância da empresa onde eu estava. Mas voltei a ter esa mesma sensação, pouco tempo depois. Fomos - eu a minha namorada - ao funeral de Sá Carneiro. Andámos quilómetros e quilómetros, a escassos 50 metros do carro funerário. A dada altura, sei que passámos por baixo de um viaduto onde se amontavam algumas dezenas de pessoas, com faixas e cartazes de apoio a Ramalho Eanes, o candidato contra quem Sá Carneiro queria montar uma maioria, um governo e um presidente.
Uma onda de fúria varreu a multidão que acompanhava o féretro. Algumas cabeças mais quentes - eu, incluído - começaram a correr, tentando encontrar uma estrada que desse acesso ao viaduto. Pelo caminho, íamos recolhendo todas as pedras de razoável dimensão que encontrávamos. Mas depois começámos a ouvir gritos de alerta, atrás de nós, a dizerem-nos para parar, para não caírmos em armadilhas, que aquilo era tudo uma provocação. A pouco e pouco, fomos parando.
Se nós tivéssemos chegado ao ajuste de contas, ali, com aquela miserável e nojenta provocação a um morto, talve as coisas tivessem sido diferentes. Talvez tivesse havido uma reacção mais forte, de todo o país, estimulado com os acontecimentos. Talvez o resultado das eleições tivesse sido outro. E, se calhar, aquela foi a segunda vez, em poucos dias, que eu falhei um cruzamento com a História...

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