sábado, 5 de novembro de 2016

Pode alguém Ser Quem Não É?

A despedida de Macau do tenente-general Rocha Vieira, onde foi simultaneamente o último governador português e o primeiro governador chinês do território, foi assinalada com algumas caricaturas curiosas, uma ou outra primeira página de impacto e pelo menos um editorial com um título com bastante piada. Tudo isto veio carregado de uma visão crítica e negativa da sua actuação como Governador que alguns, no entanto, consideram ter ficado muito próxima da perfeição. 

Jorge Sampaio, por exemplo, atribuiu a Rocha Vieira uma pífia Ordem do Infante D.Henrique, que o tenente-general nunca se preocupou, sequer, em colocar ao peito. Já Cavaco Silva não descansou enquanto não o condecorou com a Ordem Militar da Torre e Espada, a mais alta medalha militar portuguesa, atribuída apenas a meia-dúzia de soldados por feitos heróicos em combate e, por inerência do cargo, aos chefes de Estado Maior-General das Forças Armadas, em fim de comissão. Que eu saiba, dos militares que justificaram a condecoração no meio das balas, durante a Guerra Colonial, já só um está vivo, o Tenente-Coronel Marcelino da Mata. Rocha Vieira, diga-se em abono da verdade, também andou lá pela Guerra Colonial. Mas a sua Arma de opção - Engenharia - não lhe deu oportunidade de andar perto dos tiros. 

Uma coisa é verdade: o tenente-general Rocha Vieira manteve sempre uma forte ligação ao território e em Pequim, pelos vistos, a opinião sobre o seu desempenho como governador é muito positiva. Isso explica que a China o tenha convidado para trabalhar para a empresa estatal Three Gorges, na qualidade de seu representante no conselho de administração da EDP. Houve quem o criticasse, lembrando que não há memória de um oficial-general português, mesmo na reserva, trabalhar para o governo de uma potência estrangeira. Mas como dizem os americanos, o dinheiro não tem cor, cheiro ou nacionalidade...

As polémicas sobre a Fundação Jorge Álvares não só tiraram lustro à bem congeminada cerimónia da "bandeira ao peito" como permitiram a sua utilização numa manchete algo demolidora do jornal "24 Horas" ("Disclaimer": eu era chefe de Redacção do jornal, na altura, e foi com base num artigo meu que fizémos essa manchete). Mas o jornal Ou Mun, por exemplo, foi ainda mais caceteiro, ao publicar uma caricatura onde se via o tenente-general Rocha Vieira montado num avião, com uma inscrição no saco que levava às costas: "50 milhões de patacas" (em caracteres chineses, claro). Alguma piada teve o South China Morning Post: "The last plunderer of Macau", "O último saqueador de Macau", foi o título de um seu editorial. 

Bem dizia o maior estratega militar da História portuguesa, Afonso de Albuquerque, às portas da morte: "Mal com El-Rei por causa dos homens, mal com os homens por causa de El-Rei". O contra-almirante Almeida e Costa, por exemplo, viu um jornal local de língua portuguesa titular, em manchete, "Volta, Almeida e Costa!", pouco depois da sua partida definitiva do território, no que parece ter sido uma lídima expressão de afecto, vinda de, pelo menos, uma parte da comunidade portuguesa de Macau. Mas este militar também teve o seu mais violento confronto político exactamente com o dr. Carlos Assumpção, o único líder incontestado da comunidade macaense de que há memória. 

É irónico, sem dúvida, que onde alguns apenas vêm virtudes, outros só vislumbrem pecados. Dizem os franceses que as estátuas que são erguidas aos homens públicos, depois da sua morte, são construídas com as pedras que lhes atiram quando vivos. Esta inconstância dos tempos e do espírito dos homens é, por acaso, o refrão de uma conhecida canção de Sérgio Godinho, que plagiei para dar o título a este post:

"Pode alguém ser livre
Se outro alguém não é
A algema dum outro
Serve-me no pé
Nas duas mãos,
Sonhos vãos, pesadelos 
Diz-me:
Pode alguém ser quem não é?"

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